Lembram-se de Rai, a teóloga? Pois esta é a Rai de carne e osso, pulsando em extremos, dividida entre luz e sombra, entre o querer e o fugir, entre a fé que a sustenta e a dúvida que a destrói. Dentro dela existem dois mundos que não se entendem: uma parte firme, racional, cheia de convicções; e outra, infantil e frágil, pronta para se perder em lágrimas silenciosas ou em birras impulsivas, perdida no próprio medo.
Com Carlos, tudo era intensidade. Em um instante, seu coração gritava que queria estar com ele, que não suportaria a ideia de perdê-lo. Seus olhos brilhavam de desejo, suas palavras eram abraços que não cabiam em mensagens, e sua alma se lançava inteira na esperança de amor. Mas no instante seguinte, uma sombra surgia, e Rai dizia que eram apenas amigos, que precisava de espaço, que não podia se entregar. Cada ciclo durava 48 horas, terminavam e recomeçavam, se amavam e se afastavam, se feriam e se reconciliavam. Cada reencontro era uma mistura de alívio e dor, e cada afastamento queimava como gelo no peito.
Sua fé era igual à sua paixão: intensa, avassaladora, mas instável. Rai se via uma grande crente, devota e cheia de fervor. Em momentos de esperança, sentia-se invencível, abraçando a certeza de Deus como um escudo. Mas bastava um medo, uma dúvida, um olhar que parecia distante, e a fé se desfazia, deixando apenas o vazio, o silêncio, o eco de um coração que duvida até de si mesmo. Ainda assim, repetia a si mesma que era uma crente fervorosa, tentando agarrar forças que escapavam de suas mãos como água.
O comportamento infantil surgia em gestos pequenos e grandes: birras silenciosas, explosões repentinas, necessidades desesperadas de atenção e afeto. Sua insegurança corria como um rio subterrâneo, guiando cada palavra, cada reação, cada decisão. A mesma pessoa que buscava proximidade podia se afastar, duvidar do amor de Carlos, duvidar de si mesma, duvidar até de Deus.
E, no meio disso tudo, ela oscilava entre o amor e a amizade: confessava desejo e, minutos depois, afirmava que eram apenas amigos. Cada ciclo de 48 horas era um choque de emoções, um duelo entre razão e emoção, entre a criança interna que exigia cuidado e a mulher adulta que lutava para ser firme.
Rai vivia no fio da navalha entre extremos. Cada dia era uma tempestade de emoções, cada reconciliação uma promessa frágil de esperança, cada término uma ferida que sangrava e curava em ritmo acelerado. Ela era a própria contradição viva: uma mulher que afirmava ser uma grande crente, que oscilava entre amor e amizade, entre confiança e insegurança, entre a criança interna e a adulta que desejava ser.
E, ainda assim, insistia em viver cada emoção, cada perda de fé, cada reencontro, com uma sinceridade brutal, com uma intensidade que ardia no coração e na alma de quem ousasse acompanhar sua história. Rai era, no fundo, uma chama que oscilava entre luz e sombra, fé e dúvida, amor e medo e isso a definia tanto quanto qualquer convicção que pudesse ter.
Foi então que Carlos teve um sonho. No sonho, ele viu uma galinha com diversos pintos que queriam ficar em seu quintal. A galinha era Rai, cheia de vida e presença, e os pintos eram os obstáculos que se interpõem entre eles, medos, dúvidas, inseguranças, erros do passado. Carlos acordou sentindo que só depois de enfrentar e acomodar cada obstáculo, Rai poderia se estabilizar. E, de fato, ela começou a se acomodar, mas ainda faltavam muitos desafios para o relacionamento.
No meio dessa turbulência, Rai olhou para o céu e gritou para Carlos:
“Olha! A letra M no céu, bem acima de nossas cabeças!”
Era mais do que um simples desenho no firmamento; era uma mensagem do divino, um selo invisível sobre o fio tênue que os ligava. Carlos sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha, como se o universo inteiro tivesse parado por um instante apenas para confirmar que, apesar de todas as contradições, todas as dúvidas e todos os obstáculos, o vínculo deles não era casual.
A letra M parecia dançar nas nuvens, cintilando sob a luz do sol, lembrando-lhes que cada ciclo de 48 horas, cada reconciliação e cada afastamento, era uma parte do aprendizado, um teste da paciência e da fé. Rai, com os olhos marejados, sentiu seu coração pulsar em sintonia com algo maior. Era como se Deus estivesse dizendo: “Não desistam ainda, mas preparem-se para crescer juntos, enfrentando cada obstáculo que aparecer.”
Carlos compreendeu que os pintos do sonho, os medos, as inseguranças e os desafios que Rai carregava, não eram sinais de fracasso, mas partes inevitáveis da construção de algo verdadeiro. E ao olhar para Rai, viu a força que se escondia por trás da fragilidade, a fé que oscilava mas nunca desaparecia totalmente, e o amor que persistia mesmo quando parecia impossível.
Rai sorriu e, pela primeira vez, deixou que a intensidade de seus sentimentos falasse mais alto do que o medo. “O M no céu,” disse ela, “é para nós. Cada obstáculo, cada dúvida, cada reconciliação… tudo faz parte do nosso caminho.”
E naquele momento, Carlos sentiu uma paz rara: não era um amor sem tempestade, mas um amor com significado, abençoado por algo maior, selado no céu, lembrando-lhes que, embora ainda restassem muitos obstáculos, cada passo juntos era guiado por algo divino, algo maior do que ambos.
Foi a Rai que me pediu para escrever sobre ela… e eu obedeci. Ou será que exagerei só um pouquinho? Kkkkkkk
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