
A análise filológica do texto grego do Evangelho segundo Mateus, a partir dos manuscritos antigos, revela características que levantam questões sérias quanto à autoria, à datação e à forma como o sujeito principal do relato é designado. Um dos dados mais relevantes é a recorrente utilização das sequências IU e XU em posições onde se esperaria um nome próprio plenamente grafado.
Logo na abertura do texto lê-se:
ιυ χυ · ὑϊου δαδ ὑϊου
Do ponto de vista estritamente paleográfico e linguístico, estas sequências não constituem um nome próprio escrito por extenso. Elas funcionam como marcas gráficas abreviadas, cuja expansão anão é fornecida pelo próprio texto. Em termos filológicos, isto significa que o leitor não recebe um nome explícito, mas apenas um sinal gráfico cuja interpretação depende de tradição posterior ou de pressupostos externos ao manuscrito.
Ao longo da genealogia e das narrativas iniciais, o padrão mantém-se: o texto identifica relações familiares, funções e ações, mas evita consistentemente a grafia plena de um nome pessoal para o filho. Tal prática não pode ser explicada apenas por economia gráfica, pois outros nomes próprios Abraão, Isaac, Jacó, Judá e
David aparecem grafados de forma regular.
Este contraste é significativo. Ele indica que o sistema de abreviação aplicado a IU/XU não é neutro nem acidental, mas seletivo. Filologicamente, isso sugere que o texto preserva uma convenção específica, anterior à normalização posterior dos nomes próprios.
Do ponto de vista da autoria, o texto apresenta-se como anonimamente composto. Não há autodeclaração, assinatura, nem referência interna a um autor identificado como Mateus. A atribuição do nome “Mateus” ao evangelho não pertence ao texto, mas à história posterior da sua transmissão. Assim, do ponto de vista crítico, não é possível sustentar a autoria direta por uma figura histórica identificável com o personagem Mateus.
Quanto à datação, importa distinguir entre:
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A data dos manuscritos preservados, que pertencem maioritariamente ao século IV.
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A data da composição do texto, que, pela linguagem, estrutura e estado de desenvolvimento das tradições internas, aponta para uma fase anterior, provavelmente entre o final do século I e o século II.
A presença de abreviações sistemáticas, a ausência de nomes próprios plenamente grafados em pontos centrais e a evidência de camadas redacionais indicam que o texto passou por processos sucessivos de cópia, adaptação e estabilização. O resultado é um documento que preserva traços de uma fase anterior, mesmo quando transmitido por manuscritos tardios.
A leitura filológica do texto permite afirmar que:o nome próprio do filho não é apresentado de forma explícita;as sequências IU e XU não são explicadas internamente pelo texto;a autoria permanece anónima do ponto de vista textual;forma atual do evangelho resulta de uma tradição manuscrita complexa e estratificada.
Estas observações decorrem diretamente da análise do grego manuscrito tal como ele se apresenta, sem recorrer a reconstruções teológicas ou a interpretações externas ao texto.
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