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domingo, 1 de março de 2026

Rai e Carlos: Entre a Imperfeição e a Fé

Era teóloga, estudiosa das Escrituras, apaixonada pelas palavras antigas e pelos silêncios cheios de mistério. Falava do amor e da bondade com brilho nos olhos, como quem descreve um lugar onde já esteve. Mas quem a conhecia de perto sabia que Rai estava longe de qualquer ideal intocável.

Tinha teimosia no olhar.

Quando acreditava em algo, defendia até o fim. Às vezes confundia convicção com insistência. Outras vezes, fazia pequenas traquinices, comentários provocativos em debates sérios, perguntas feitas só para ver até onde o outro ia. E, sim, havia momentos de rebeldia. Não contra o que ela amava profundamente, mas contra expectativas humanas, rótulos apertados, regras que pareciam mais orgulho do que sentido.

Ainda assim, quem precisasse dela encontrava sempre portas abertas.

Rai tinha um coração largo. Ajudava discretamente, sem anunciar. Visitava quem estava doente. Escutava quem estava perdido. Orava por quem nem sabia que precisava de atenção. Sua fé não era apenas argumento; era gesto. Acreditava com firmeza, mas também com ternura. Para ela, o que amava não era um conceito a ser vencido num debate, mas uma Presença a ser vivida no cotidiano.

Carlos era diferente.

Também cristão, profundamente devocional, começava os dias com disciplina e cuidado. Gostava de ordem, de planos bem feitos, de decisões pensadas. Buscava a perfeição como quem tenta honrar aquilo que acredita ser justo. Tudo precisava sair certo. Tudo precisava fazer sentido.

O problema é que, quando algo falhava, Carlos raramente admitia. Custava-lhe reconhecer o erro. Não por maldade, mas por uma mistura de orgulho e medo de desapontar. Dentro dele havia uma voz que dizia que, se falhasse, não teria sido fiel o suficiente.

Entre Rai e Carlos havia debates frequentes.

Nem tudo precisa estar perfeito para que a vida siga, dizia ela, sorrindo com aquela calma provocadora.

Mas devemos dar o melhor, respondia ele, firme.

Dar o melhor, sim. Exigir perfeição, não.

Ele suspirava. Ela cruzava os braços. E, no fundo, ambos sabiam que estavam aprendendo um com o outro.

Rai ensinava Carlos que a graça é maior que desempenho. Que reconhecer o erro é também um ato de coragem. Que a vida funciona em corações imperfeitos.

Carlos ensinava Rai que disciplina também é cuidado. Que zelo não é sempre rigidez. Que buscar excelência pode ser uma forma sincera de dedicação.

Nenhum dos dois era perfeito. E talvez fosse exatamente esse o ponto.

Rai, com sua teimosia, traquinices e rebeldias ocasionais, mostrava que integridade não é ausência de falhas, mas fidelidade apesar delas. Carlos, com sua busca por ordem e perfeição, revelava que o desejo de fazer o melhor pode ser belo — desde que temperado com humildade.

No fim, caminhavam juntos.

Ela lembrava a ele que são obras em construção.
Ele lembrava a ela que são obras de aprendizado e cuidado mútuo.

E entre imperfeições reconhecidas, virtudes cultivadas e atitudes sinceras, descobriam que não existe perfeição humana. Existe crescimento. Existe arrependimento. Existe graça.

E isso, talvez, seja ainda mais bonito.

 
 

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